Onde você lê com seu Filho?

Por Ana Inês

Repórter Mãe de Íris, Davi e Caio


Traçado por Oscar Niemeyer para ser um espaço de inclusão, o Conjunto Cultural da República demorou mais de quatro décadas para ser construído e “mais um pouquinho” para começar a funcionar… até hoje é sub-utilizado.
Em meio ao solo fértil do cerrado, as idéias parecem grandiosas, mas falta brotar as oportunidades de conhecimento e misturar as várias realidades que passam por aqui. No museu de grandes eventos, exposições e fóruns abertos ao público, que nem sequer sabe o que está acontecendo dentro daquela cúpula. O conjunto já recebe autoridades e todas as pompas dignas de sua arquitetura, mas parece que a área ainda é cercada por um campo de força (daqueles mesmo que vemos em desenho animado).

Prateleiras Vazias
Há um ano, durante o Festival de Cultura Popular de Brasília, passeamos (eu, Daniel e os meninos) por ali. O cenário já nos é conhecido. Íris, Davi e Caio disseram que é um lugar ótimo pra correr, andar de bicicleta, scate e patins…traços puros de Niemeyer. Mas ficamos de voltar depois, pra conhecer os prédios por dentro, fazer outros passeios.

Nas férias de julho, para quem fazia um roteiro de reconhecer e aproveitar a própria cidade, a Esplanada dos Ministérios e o Conjunto Cultural da República não poderiam ser deixados de lado. O museu estava aberto a algumas exposições – se encantaram principalmente com as histórias dos samurais, durante as comemorações de 100 anos das relações nipo-brasileiras. Atravessaram a rua (o Eixo Monumental), foram ao Teatro Nacional, à exposição internacional sobre Darwin e fizeram grandes descobertas mas, chegaram com uma queixa: não puderam entrar na biblioteca.
Ali mesmo, ao lado do Museu, a Biblioteca Nacional de Brasília, que deveria ter sido inaugurada há pelo menos dois anos, ainda não permitia a entrada de visitantes. Por um simples motivo: estava completamente vazia. O conjunto cultural que abriga a biblioteca seria ideologicamente uma ponte entre o centro de circulação popular (a rodoviária) e o centro do poder público (a praça dos três poderes). Mas, até mesmo as crianças fizeram sua releitura prática da situação. “Mas como pode mamãe? Uma biblioteca sem livros?”, eles me perguntaram.

Memórias de Infância
Quando eu tinha a idade de Íris (12 anos), morávamos ao lado da Universidade Federal de Pernambuco e aos domingos era feliz e sagrado nosso piquenique e pedalada ao lado da biblioteca Central. Levávamos nossos próprios livros, músicas e histórias pra contar ( eu, minha mãe e meus irmãos) e, durante a semana, entre as pequenas seções infantis das livrarias, ou a espera de minha mãe na universidade, crescemos nos achando – entre os livros – num ambiente familiar.

Hoje, indo ao trabalho, parei na Esplanada dos Ministérios (naquela biblioteca – edifício com características de pavilhão, retilíneo em cinco pavimentos).

Timidamente fui recebida por um guarda. Depois de meia dúzia de perguntas, ele me respondeu que no último andar acontecia ali uma exposição – era vestígio da I Bienal de Poesia de Brasília. Subi, tirei umas fotos, li as instalações, vi os espelhos de Mario Quintana e Cecília Meireles e resolvi procurar alguém pra conversar. Sorte minha, no elevador encontrei (sem ainda nem saber de quem se tratava) o professor Antônio Miranda, diretor da Biblioteca. Em poucos minutos ele me tranqüilizou.
Disse que iriam inaugurar todo o espaço até o próximo mês de novembro e justificou que a intenção de abrir as portas junto à Bienal de Poesia não se concretizou porque ainda estavam trabalhando na catalogação dos 50 mil títulos do acervo que precisa ser organizado, mas confirmou também a idéia do espaço prático, que além das estantes cheias de livro, servirá estrategicamente para se trabalhar a inclusão digital. Mas, foi sua última frase que me animou de verdade: “para as crianças, teremos aqui uma ampla sala de leitura e um espaço multimídia”, apontou o professor Miranda para o primeiro saguão, ao destacar também a atenção especial à acessibilidade.

Espero realmente que essas idéias se concretizem o mais rápido possível e possamos, durante os finais de semana, em vez de ir a shoppings e cinemas, fazer um passeio de bicicleta ali perto da biblioteca… exercitar a leitura sem a prática do consumismo.

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